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2.5.18

MANTER O AMOR E O DESEJO NUMA RELAÇÃO DÁ TRABALHO


É um cliché que ouvimos praticamente desde crianças: tudo o que importa, dá trabalho. Dá trabalho alimentar uma relação. É um desafio permanente e quem deixa de se empenhar acaba quase sempre por ser apanhado pelas estatísticas das separações. Mas o que é que implica, na prática, investir na medida certa na própria relação e fazer com que ela continue a dar certo, inclusive do ponto de vista da intimidade sexual?


A esmagadora maioria das pessoas que conheço – dentro e fora do gabinete – apontam a família como a área da vida mais importante e a relação conjugal em particular como a relação adulta a que dão prioridade. No entanto, isso nem sempre parece ser o suficiente para que, na prática, a relação continue viva e apaixonada, pelo que importa que sejamos capazes de olhar com detalhe (e honestidade) para aquilo que estamos a fazer.

A QUEM RESPONDE PRIMEIRO NO WHATSAPP?


Quando pega no seu telefone, quais são as notificações que abre primeiro? A que mensagens se esforça por responder primeiro? Quantas vezes abriu uma mensagem do seu companheiro e deixou para responder mais tarde, saltando para um comentário de Facebook ou até para uma mensagem do seu chefe?



De uma maneira geral, precisamos de sentir que a pessoa que está ao nosso lado nos trata como uma prioridade – não apenas quando morre alguém, quando há um acidente ou quando perdemos o emprego. É nas pequenas coisas que avaliamos a importância que temos para alguém – nos detalhes do dia-a-dia.

Quando uma pessoa vive com a sensação de que o companheiro não quer saber, não valoriza, não presta atenção aos seus apelos, é mais provável que se sinta desamparada – e isso reflete-se na sua motivação, na capacidade de se entregar fisicamente e, claro, no desejo sexual.

Quando nos apressamos para responder a um e-mail profissional, a uma mensagem de whatsapp do chefe enviada fora de horas ou a um telefonema de trabalho, qual é a nossa intenção? O mais provável é que tenhamos vontade de mostrar que estamos atentos, que somos “bons” naquilo que esperam de nós e que queiramos passar a mensagem de que a empresa pode contar connosco.

Seria interessante se geríssemos as nossas relações com o cuidado e com a atenção com que gerimos a nossa carreira. Sobretudo, se tivermos em consideração as nossas prioridades.

NÃO VISTA JÁ O PIJAMA


Chegar a casa e vestir o pijama ou uma peça de roupa mais confortável é sinal de que podemos finalmente relaxar e estar com as pessoas de quem mais gostamos sem máscaras nem artefactos. Mas talvez valha a pena pensar no investimento que estamos – ou não - a fazer no erotismo da nossa relação. Afinal, se nos produzirmos diariamente apenas para ir trabalhar, se nos aperaltarmos para as múltiplas reuniões de trabalho com o objetivo de transmitir uma imagem interessante, que sentido fará que esperemos que o nosso companheiro continue a sentir desejo por nós ao fim de décadas de relacionamento?

Não foi por acaso que comecei por referir que alimentar uma relação dá trabalho. No meio das mil e uma tarefas que temos para cumprir ao longo do dia, mais aquelas que dizem respeito à educação dos filhos e às lides domésticas, nem sempre é fácil vencer o cansaço e alimentar o amor romântico.



Há algumas pessoas que se convencem de que casar é passar a viver com alguém que nos deseja e que vai gostar de nós sempre da mesma maneira, independentemente do que façamos. Nada poderia estar mais longe da realidade. Do mesmo modo que nos sentimos entusiasmados com a série de televisão do momento e esse entusiasmo, mais cedo ou mais tarde, se desvanece e dá lugar ao entusiasmo por outras séries (ou por outra coisa qualquer), é importante que valorizemos a importância da novidade nas nossas relações.

CASAIS QUE SE DIVIRTAM JUNTOS

FICAM JUNTOS


Há quanto tempo não faz qualquer coisa pela primeira vez com o seu companheiro? Podem ser coisas simples como experimentar um restaurante diferente do habitual, experimentar um tipo de dança novo ou viajar até um local a que nunca tenham ido.

A maior parte dos casais com quem trabalho e que se queixam da falta de desejo sexual deixaram de se divertir a dois. Sobretudo, deixaram de encontrar formas novas de se divertir a dois. Por outro lado, a maior parte das pessoas que foram infiéis revelam-me que, ainda que não estivessem á procura de nada, a relação extraconjugal as fez sentirem-se «vivas».

É curioso como as duas coisas estão interligadas. O nosso desejo aumenta de forma exponencial em relação à novidade e ao mistério. Esse é indiscutivelmente um dos grandes desafios da vida a dois: manter a novidade e o mistério numa relação de longa duração.

Se repararmos, damo-nos conta de que um dos papéis mais gratificantes da nossa vida está recheado de novidades: a parentalidade. Os filhos estão em constante mudança. Todos os dias há novidades a explorar e isso pode facilmente captar a nossa atenção e o nosso interesse. É muito frequente que algumas mães canalizem toda a sua energia e o seu investimento para esse papel, descurando, de forma involuntária, a relação conjugal.

Mas da mesma maneira que não faria sentido que deixássemos um filho mais velho “ao abandono” com a chegada de um segundo bebé, não faz sentido que abandonemos a nossa relação.

SE EU NÃO CUIDAR DE MIM…


É curioso porque quando falamos de desejo sexual falamos quase sempre daquilo que nos desperta interesse, daquilo que o nosso companheiro pode fazer para chamar a nossa atenção. Mas é fundamental que prestemos mais atenção àquilo que cada um de nós pode fazer para se sentir vivo, entusiasmado e, por isso, mais disponível para a relação – tanto do ponto de vista físico como emocional.

Quando pergunto a algumas pessoas o que é que as relaxa, ouço muitas vezes coisas como «Sair para beber um copo», «Dançar», «Ir ao ginásio», «Conversar com as amigas» mas quando as questiono sobre a frequência com que o fazem, ouço muitas vezes a resposta «Raramente».



Por outro lado, importa que olhemos para forma como nos sentimos em relação ao nosso corpo. Se uma pessoa não se sentir bem no próprio corpo, muito mais dificilmente vai conseguir sentir-se livre para o expor na relação.

Não temos de ter um corpo perfeito para viver uma relação que nos satisfaça. Mas é fundamental que nos aceitemos, que gostemos genuinamente do que vemos e que façamos o que estiver ao nosso alcance para melhorar o que houver a melhorar. 

Estar numa relação que nos faça sentir vivos e entusiasmados ao fim de vários anos é muito desafiante. Dá mesmo muito trabalho. Obriga-nos a prestar atenção, a fazer esforços em vez de cedermos ao que apetece no momento e a parar, pelo menos de vez em quando, para questionar a pessoa que está ao nosso lado. Implica que nos lembremos que querer estar ao lado de alguém e desejar essa pessoa é muito diferente de precisar dela.
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