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8.5.18

TER UMA RELAÇÃO COM ALGUÉM QUE JÁ TENHA FILHOS


A maior parte das pessoas que conheço não desejariam casar com alguém que já tivesse filhos – mesmo aquelas que adoram crianças. Mas a vida é exímia em trocar-nos as voltas e há muitas pessoas que acabam por envolver-se romanticamente com alguém nestas circunstâncias, acabando por enfrentar uma série de desafios para os quais naturalmente nem sempre se sentem preparadas. O que é que há de tão desafiante nestas famílias? E o que é que pode ser feito para que os desafios sejam ultrapassados com sucesso?


Talvez seja o preconceito, a idealização ou o instinto: a maior parte das pessoas acham que seria mais «complicado» ter uma relação séria com alguém que já tivesse filhos. E têm razão. Uma família reconstituída tem mais ligações para gerir, mais focos de tensão do que o habitual. A boa notícia é que, quando estes nós são desatados, a probabilidade de todos se sentirem mais unidos é muito alta. 

NÃO DÁ PARA COMEÇAR DO ZERO


Quando duas pessoas sem filhos se juntam, têm tempo para tudo: para se conhecer em profundidade, para namorar, para se zangar e para fazer as pazes. Têm tempo para criar raízes antes da turbulência que é a chegada do primeiro filho. Têm oportunidade de sonhar a dois e fazer planos com fronteiras claras em relação às opiniões da família alargada. Têm espaço para começar do zero e definir um rumo.



Quantos de nós faltámos às aulas, ao trabalho ou a outros compromissos “só” para estar com a pessoa por quem nos apaixonámos? O início da paixão também é isso: fazer algumas escolhas mais impulsivas e querer estar sempre ao lado daquela pessoa. Quando há filhos, isso pode implicar dizer mais vezes «Não» e transmitir a mensagem de que a relação não é assim tão importante. Ou, pelo menos, a pessoa que ouve o «Não» pode sentir que não é uma prioridade. E é natural que se entristeça. 

Como em quase tudo na vida, é a conversar que as coisas se resolvem. Quando cada um presta atenção ao que está a sentir e se sente capaz de dar voz aos próprios sentimentos com respeito pelo outro, é mais provável que ambos se sintam amparados.

Claro que muitas vezes a intenção de um é “só” exteriorizar o que sente e o outro sente-se imediatamente atacado. Tenho-me cruzado com muitos casais que se sentem presos a discussões inúteis – autênticos círculos viciosos de que ambos saem desgastados.

Há uma “regra” que nos ajuda quase sempre a dialogar sem culpas, ataques pessoais ou necessidade de nos defendermos: 


Colocarmo-nos (genuinamente) na posição
da outra pessoa. 
Identificar o comportamento ou a situação
que nos desagrada. 
Identificar como é que isso nos faz sentir.
Identificar aquilo de que precisamos
(quanto mais concretamente, melhor).



Por exemplo, se uma pessoa disser «Eu sei que tens muita coisa para gerir ao final do dia, mas nas semanas em que estás com os teus filhos a nossa comunicação diminui e eu sinto-me desamparado(a). Gostava que pudesses mandar uma mensagem de vez em quando a perguntar como me sinto ou que pudéssemos conversar um bocadinho ao telefone antes de dormir», estará a manifestar o seu desagrado de forma clara, honesta, respeitando-se e respeitando o companheiro. Isto é muito diferente de dizer qualquer coisa como «É sempre a mesma coisa. Quando estás com os teus filhos esqueces-te de mim!».

É óbvio que qualquer manifestação de desagrado é uma crítica e nem sempre é fácil gerir as emoções nessa posição. Ser capaz de responder à crítica com genuína empatia e curiosidade, colocando perguntas que traduzam vontade de amparar, é o caminho mais seguro para que a outra pessoa se sinta acolhida – mesmo que, no final, a solução de compromisso seja outra.

UMA QUESTÃO DE RESPEITO


Quando o pai ou a mãe tem um(a) namorado(a) e, sobretudo, quando há a possibilidade de passarem a viver juntos, é normal que as crianças se sintam inseguras – mesmo que tenham uma relação harmoniosa com o adulto. Mas tal como nós adultos, as crianças nem sempre mostram os seus sentimentos de forma arrumadinha. Se isso é dificílimo para nós, imagine-se para elas!



A madrasta ou o padrasto costumam ter ótimas intenções mas é normal que se sintam um bocadinho desmoralizados quando se sentem rejeitados. É preciso respeitar os próprios sentimentos, verbaliza-los (ao outro adulto) e definir de forma clara a intenção de respeitar o ritmo e as emoções de cada criança.

TEMPO PARA NAMORAR


Não há volta a dar. Qualquer relação amorosa depende do nosso investimento, da nossa capacidade para mostrar que queremos estar com aquela pessoa e que ela é a nossa prioridade. Há poucas coisas que protejam tanto uma relação como os rituais, aqueles momentos a dois em que ambos se divertem e relaxam. Quando ambos são capazes de assumir compromissos realistas, que implicam que cada um saiba com o que é que pode contar, tudo se torna mais fácil. 



Namorar não é só ter tempo e disponibilidade para a intimidade sexual mas também é isso. E para que tudo flua melhor neste campo, é preciso que haja tempo para conversar sem interrupções e para descontrair regularmente sem filhos.

DEFINIR UM RUMO


Tal como acontece quando se começa do zero, mais cedo ou mais tarde é preciso tomar decisões práticas que ajudem a concretizar os sonhos de cada um. Quanto mais sinceros forem os membros do casal, revelando-se tal como são, melhor.

É natural que no início haja um que não pense nem fale em casar ou morar na mesma casa mas também é normal que ao fim de algum tempo essa vontade cresça. Tenho conhecido alguns casais que se distanciam mais porque não são capazes de assumir claramente aquilo que sentem do que propriamente por quererem coisas diferentes. É mesmo muito importante fazer o que for possível para evitar ressentimentos.

Conversar, com genuína curiosidade e respeito é sempre o melhor caminho.
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