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13.7.18

COMO EVITAR UMA TRAIÇÃO


Habituámo-nos à ideia de que as traições só acontecem nas relações mais desgastadas até ao dia em que nos demos conta de que, afinal, as pessoas que estão felizes com a sua relação também podem ser infiéis. É legítimo que nos perguntemos: o que é que nos protege de uma infidelidade?


Cerca de oitenta por cento de nós já foram atingidos pela infidelidade - de forma direta ou indireta. Alguns traíram, outros foram traídos, há quem seja filho de uma relação extraconjugal, o familiar que procura estar "lá" depois da traição ou o amigo que descobriu a relação ainda antes da pessoa traída.

Sabemos, por isso, que a infidelidade não acontece só aos outros e que pode atingir, literalmente, qualquer relação. Ainda para mais, há cada vez mais formas de traição e nem tudo funciona da mesma maneira para todos os casais.



O que é que nós podemos fazer para que as regras que foram acordadas a dois não sejam quebradas? O que é que está ao nosso alcance para que a pessoa que está ao nosso lado continue a sentir-se feliz e preenchida? Que escolhas nos garantem que a pessoa que amamos não se sentirá tentada a buscar outras emoções fora da relação?

Para compreender a infidelidade é importante reconhecer algo que praticamente todas as pessoas que traíram verbalizam: "Esta relação [extraconjugal] fez-me sentir vivo(a)". Perguntar-me-ão "Mas não estava feliz com o que tinha?", "Porque é que não se queixou?". E eu respondo: às vezes - muitas vezes, na verdade - a pessoa que trai não se sente propriamente insatisfeita com a relação. Há é um conjunto de emoções que deixou de sentir e de que já nem se lembrava. Quando a terceira pessoa surge e o/a faz sentir-se tão especial, tão desejado(a), tudo muda.

Há muitas pessoas que são apanhadas desprevenidas pela intensidade destes sentimentos e que se sentem genuinamente culpadas por não saberem como os hão de gerir.

Aquilo que a relação extraconjugal traz é quase sempre o mesmo - e tem pouco a ver com o sexo: a pessoa sente-se vista (como há muito tempo não sentia), sente-se importante, sente-se valorizada, sente-se desejada, sente-se especial. E muitas vezes nem é preciso que haja qualquer contacto físico para que a relação oficial seja posta em causa. Porque o entusiasmo que a pessoa sente só a propósito do beijo que deseja trocar com outra pessoa fá-la sentir-se viva e questionar tudo.

Daí que cada um de nós tenha mesmo de refletir sobre o investimento que estamos (ou não) a fazer nas nossas relações. Estaremos a levar para casa, no final do dia, o entusiasmo, a alegria, a paciência ou até o glamour que levamos para o trabalho? Estaremos a dar o nosso melhor, a prestar genuína atenção ao que o outro diz e a fazer o que estiver ao nosso alcance para que se sinta reconhecido, valorizado, desejado?

É tão fácil relaxar e dar a relação como garantida! A verdade é que quando saímos de casa de manhã fazemo-lo quase sempre empenhados em sermos profissionais de excelência, atentos às necessidades e às exigências dos chefes ou dos clientes. Arranjamo-nos e queremos manter uma imagem cuidada aos olhos daqueles com quem trabalhamos. No regresso a casa estamos cansados e, para quem tem filhos, começa aí o segundo turno. Há banhos e jantares para dar e é uma sorte se conseguirmos manter os olhos abertos para ler ou assistir a qualquer coisa na televisão. A relação conjugal pode facilmente passar para segundo plano, ao contrário do que acontecia nos primeiros tempos.



Isso dá trabalho, claro. Mas faz-nos sentir vivos e otimistas em relação à possibilidade de ser “para a vida toda”. Na prática, como é que isto se faz?

Valorizar as conversas de final de dia.


Até pode não haver tempo para parar e conversar calmamente enroscados no sofá – especialmente se houver banhos e jantares para dar às crianças – MAS é fundamental que nos lembremos de que todos os dias há acontecimentos que mexem connosco e que gostamos (precisamos) de partilhar. Escutar com genuína atenção, colocar perguntas que demonstrem genuíno interesse e ir acompanhando as situações que mexem com a pessoa de quem gostamos é meio caminho para que ela sinta que é importante para nós. Há muitas pessoas que me pedem ajuda em terapia e que me dizem “Eu sentia-me invisível”.

Valorizar os sonhos da pessoa que está ao nosso lado.


Se há algo que nos faz sentir vivos são os nossos sonhos. Sonhar é grátis e, quando projetamos aquilo que desejamos fazer, sentimo-nos mais vivos do que nunca. No meio de todas as rotinas e compromissos nem sempre é fácil lembrarmo-nos de prestar atenção ao que o outro diz, sobretudo se estiver a falar de assuntos que não nos digam nada ou que se refiram a objetivos difíceis de alcançar. Achamos muitas vezes que estamos a prestar atenção na medida certa, que estamos “lá” para a outra pessoa mas isso nem sempre é verdade. Conhece a lista de coisas que o seu companheiro gostaria de fazer ao longo da vida? Sabe quais são os objetivos que ele/a gostaria de pôr em prática ao longo do próximo ano?

Valorizar os gestos de afeto e o sexo.


Quantos casais conhece e com quem convive que mal se tocam? Os gestos de afeto são a linguagem do amor, são a forma mais clara de dizer “Gosto de ti”. Quando mostramos aquilo que sentimos através do toque, investindo nos beijos e nas carícias, a pessoa que está ao nosso lado sente-se desejada, sente-se especial. Pelo contrário, se ele/a estiver sistematicamente a sentir-se rejeitado(a) ou ignorado(a), mesmo que haja relações sexuais todas as semanas, o mais provável é que a relação esfrie.



Falar sobre aquilo de que cada um gosta, sobre o que cada um espera desta área da vida a dois e sobre o que pode apimentar uma relação de longa duração é continuar a prestar muita atenção ao que nos pode fazer sentir vivos.

Valorizar a individualidade.


Como é que se pode desejar aquilo que já se tem? Como é que se pode sentir a sede de conquistar a pessoa que está sempre “ali”? Se não houver mistério, é mais fácil que se perca o entusiasmo, ainda que haja uma ligação profundamente segura. Cada pessoa pode investir noutras relações de amizade, pode passar tempo sem o companheiro, pode ter interesses diferentes dos dele(a). De uma maneira geral, essa distância é enriquecedora, sobretudo, na medida em que fomente a admiração mútua e a sensação de que nada está garantido.

Manter uma relação que nos faça sentir vivos é extraordinariamente desafiante. Requer uma comunicação aberta, que nos revelemos exatamente como somos e, ao mesmo tempo, que deixemos alguma parte para a imaginação. Envolve rotinas que nos façam sentir suficientemente seguros e novidades que façam valer a pena correr alguns riscos. Implica que haja um projeto a dois verdadeiramente sólido, um rumo, mas também a abertura para refazer planos e sonhos mais do que uma vez na vida.
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