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5.7.10

IMPREVISTOS DA VIDA

Cada pessoa tem os seus sonhos, os seus objectivos de vida e a energia que é dedicada à concretização desses ideais é normalmente recompensada. A simples ideia de estarmos a trabalhar para a materialização de um dos nossos sonhos pode ser reconfortante. De resto, há pessoas que não chegam a atingir determinadas metas mas que morrem felizes porque passaram a vida a lutar por aquilo que queriam. Nenhum de nós sabe exactamente como estará daqui a cinco ou dez anos. Alguns de nós não terão sequer qualquer preocupação a esse respeito. Mas é tranquilizador e revigorante sabermos que, se trabalharmos, se dermos o nosso melhor, seremos capazes de juntar dinheiro para fazer uma viagem ou para comprar uma casa ou para cumprir qualquer outro sonho.

Independentemente das convenções sociais e daquilo que as pessoas mais próximas esperam de nós, agrada-nos pensar acerca daquilo que queremos fazer da nossa vida. Algumas pessoas “sabem” que vão querer casar-se antes dos 30, outras assumem a sua vontade de terem um determinado número filhos e outras definirão a altura em que ambicionam ganhar o seu primeiro milhão :).

Mas a vida não corre sempre como nós queremos e, à medida que amadurecemos, percebemos que alguns dos nossos sonhos vão ter de ficar pelo caminho e aprendemos a lidar com os imprevistos. Dificilmente conseguimos entrar na vida adulta sem que nos deparemos com obstáculos, perdas ou rejeições com que não contávamos. Nessas alturas, podemos escolher viver as emoções associadas ao respectivo acontecimento e contornar o obstáculo, mesmo que isso implique algum tempo e muita energia, ou, pelo contrário, fingir que nada mudou e ignorar os próprios sentimentos ou até a nova realidade.

Algumas pessoas são mais resistentes à mudança do que outras, pelo que sentem mais dificuldades em lidar com o que não estava planeado, com os desvios impostos pela vida. Encaram os acidentes de percurso como pequenos estorvos porque não estão dispostas a abdicar dos seus sonhos, mesmo que a prossecução desses objectivos passe a ser utópica.

Todos os telespectadores portugueses se lembrarão de um ou outro caso mediático que envolva audições mal sucedidas para concursos de música. Lembrar-se-ão também daqueles casos em que o concorrente decide tentar a sua sorte repetidas vezes, ainda que lhe tenha sido dito SEMPRE que aquela não seria a sua vocação. “Porque insiste?”- perguntar-nos-emos – “Como é possível que não perceba que está a expor-se ao ridículo, aumentando o seu sofrimento?”. A resposta está na dificuldade em lidar com a dor e/ou coma rejeição que resulta da nova realidade.

Quando falamos no impacto desta dificuldade podemos falar de situações mais sérias, como as que envolvem a negação por parte dos pais da existência de uma doença crónica nalgum dos seus filhos. Com certeza que não será fácil assumir (para si mesmo ou para o exterior) que o filho é esquizofrénico, por exemplo. Esta assunção implica um desvio considerável em relação às expectativas que um pai ou uma mãe construiu em relação ao seu filho, mas implica sobretudo que as mangas possam ser arregaçadas e que os recursos possam ser mobilizados e a respectiva doença possa ser devidamente acompanhada. Quando, pelo contrário, um casal se recusa a aceitar que o emagrecimento excessivo da sua filha esteja relacionado com um problema sério como a anorexia nervosa, abastecendo-se de caixas de vitaminas, está, de modo infrutífero, a tentar fugir à realidade, a um acidente de percurso.

Sejamos nós um anónimo qualquer ou uma celebridade mundialmente reconhecida, confrontar-nos-emos sempre com eventos não planeados. É possível que algum dos nossos sonhos seja subitamente interrompido por um acidente, pela perda de emprego ou por qualquer outro imprevisto. De repente, tudo muda, às vezes de forma definitiva. Aquilo que fazemos quando isso acontece pode determinar a duração da nossa ansiedade, bem como do resto da família. Quando nos agarramos a uma visão distorcida da realidade, negando a existência do problema, alimentamos a esperança de que o sonho possa, ainda assim, concretizar-se, como se dependesse apenas da nossa força de vontade. Mas a verdade é que esta é uma escolha que agudiza o sofrimento e que nos mantém enredados em ciclos viciosos.

Seguir em frente implica reconhecer os imprevistos e aceitar que a vida é recheada de eventos não planeados e indesejados. “Esbracejar” perante uma realidade que já aconteceu apenas fará com que gastemos o nosso (precioso) tempo e a nossa energia.

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