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13.2.14

APANHAR POR AMOR


Como é que ela aguenta? Por que é que ela aguenta? Por que é que não se vai embora? Por que é que não o põe fora de casa? Por que é que não faz queixa? Tem provas. Tem tantas provas! Tem-nas no corpo. É certo que não estão à vista. Afinal, há muito tempo que ele se habituou a bater-lhe em sítios estratégicos. E há muito tempo que ela se habituou a usar mangas compridas mesmo quando está calor. Ou calças quando tem vestidos por estrear. Esconde as nódoas negras e os insultos. Não se queixa. Não se permite reproduzir em voz alta os nomes que ele lhe chama. Prefere protege-lo. Prefere que os familiares e amigos continuem a estimá-lo como sempre. Que o vejam como o marido perfeito que nunca foi. Porque acredita que os seus esforços serão recompensados e que um dia ele muda. Mas os anos passam e as marcas continuam. Os vizinhos ouvem os gritos, ouvem o estrondo da televisão que se parte, atirada contra a parede. E ouvem outros ruídos que, não sendo claros, imaginam que possam ser empurrões. Mas não fazem nada. Já não fazem nada. Houve alturas em que chamaram a polícia. Houve dias em que, sem que ele estivesse por perto, perguntaram se precisava de ajuda. Se queria ser ajudada. Esbarraram em frases como “Não é nada disso… está tudo bem… a sério”. E desistiram. É relativamente fácil desistir de ajudar quem, aparentemente, se recusa a identificar o problema. Quem os pode julgar?

Todos se escandalizam com a situação em que ela vive. Com a escolha que faz dia após dia. Por que é que ela não se separa? Por que é que continua a apanhar e a encobrir aquele monstro? Por que é que, apesar de ter meios financeiros para sair de casa opta por continuar a ser uma vítima? Não entendem a vergonha que ela sente por ser essa vítima. Não entendem que o tempo ao lado daquele monstro não levou apenas a felicidade mas também roubou a autoestima. Não sabem que de cada vez que ela tratou dos próprios hematomas em sigilo uma parte de si morreu. Já não é a mulher segura e determinada que todos julgam. Está muito longe disso. É uma mulher frágil, só, dependente de um amor que não existe. Dependente de um monstro. É uma mulher cheia de medo de ser abandonada. Que acredita que não pode ser feliz sozinha ou ao lado de outra pessoa. Que acha que não sobreviveria ao fim daquela relação.


E quando alguém descobre a verdade ela jura a pés juntos que foi a primeira vez. E que ela também teve culpa. Porque o provocou. Porque disse o que não devia. Talvez minta e diga que lhe bateu primeiro. Vale tudo para evitar o fim. Ironicamente, ela ainda não percebeu que o amor acabou. Se é que alguma vez existiu.
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