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31.3.14

QUÃO CHATOS DEVEM SER OS PAIS?


As paredes do meu consultório já viram de (quase) tudo: pais chatíssimos, tão chatos que chegam a ser desrespeitadores da liberdade a que os filhos também têm direito, pais chatos assim-assim e pais que nunca chateiam. Os pais que são mesmo muito chatos têm sempre alguma coisa para dizer. Têm sempre uma pergunta na ponta da língua – tens frio? Tens fome? Tens febre? Tens medo de alguma coisa? Tens a certeza que não tens medo? Precisas de falar? Eu gostava que falasses abertamente comigo – tens a certeza que não há nada que me queiras contar? Estes pais estão quase sempre empenhadíssimos em serem os melhores do mundo. Não é que lutem por uma medalha ou pelo reconhecimento externo. Querem ser os melhores do mundo aos olhos dos filhos, que amam acima de tudo. E, em função desse amor, que às vezes os consome de ansiedade, esquecem-se que também já foram adolescentes, que também já tiveram de lutar pela própria autonomização. Esquecem-se que o silêncio nem sempre significa desamor nem sequer distanciamento. Têm dificuldade em lidar com o desconhecido e com os segredos que agora são partilhados com outros confidentes. Às vezes desesperam por já não ser possível controlar cada passo ou amparar cada queda das suas crias. E, mesmo que nem sempre se apercebam, contagiam os filhos com os seus medos, com a sua ansiedade. Querem que eles sejam felizes, seguros e saudáveis mas têm dificuldade em dar-lhes o espaço de que precisam para se transformarem em adultos.

Pelo contrário, os pais que nunca (mas mesmo nunca) chateiam não sabem o que isso é. Vivem o papel parental de forma descontraída, sem medos. Dão aos filhos todo o espaço do mundo e reconhecem que esse espaço é fundamental para que eles errem, para que se magoem e, claro, para que aprendam com os erros e se transformem em adultos felizes, seguros e saudáveis. Não fazem muitas perguntas. Para dizer a verdade, há um momento – algures no pico da adolescência – a partir do qual deixam de fazer perguntas. Não é que não se interessem ou não queiram saber. Procuram não exercer pressão. Dão liberdade para que o adolescente escolha outros confidentes. Afinal, eles sabem que aos olhos de um jovem de 14 anos os conselhos dos amigos são bem mais relevantes do que os dos pais. Têm ainda muito presentes os sermões com que os seus próprios pais os brindavam e fazem o que está ao seu alcance para não serem vistos desta forma antiquada. Estes pais não têm a ambição de receber a faixa de “Pais mais cool do planeta”. Mas dão o seu melhor no sentido de a palavra “cool” poder ser usada pelos filhos para os descrever. Estão tão empenhados nessa tarefa que às vezes se esquecem de colocar perguntas importantes como “Está tudo bem?” ou “Precisas de alguma coisa?”. Assumem que existem confidentes mais interessantes e esquecem-se de que a adolescência é um período difícil e que nem todos os jovens podem gabar-se de ter verdadeiros amigos. Já não se lembram das dificuldades porque passaram enquanto andavam na escola ou de quão reconfortantes podem ser as palavras de alguém mais velho, capaz de desdramatizar os problemas e devolver a esperança. Orgulham-se por serem pais capazes de respeitar o espaço dos filhos e ignoram que as horas que o adolescente passa trancado no quarto possam ser horas de angústia e solidão. Estão convencidos de que a música em altos berros é uma manifestação típica de quem está a crescer e a rebelar-se e esquecem-se que os adolescentes também choram. Como tiveram pais chatos, não sabem o que é ser adolescente e sentir saudades de ser criança. Não sabem que há adolescentes com saudades dos próprios pais. Que há jovens que precisam, acima de tudo, que os pais continuem a mostrar-lhes que estão “lá”, que se preocupam e que vão continuar a interessar-se e a querer dar colo mesmo que eles se transformem em adultos.


Os pais assim-assim não são perfeitos. Nem sequer são chatos na medida certa. Mas só porque não há uma medida universalmente certa. Os pais medianamente chatos sabem que os filhos estão a crescer e que isso implica que às vezes tenham de dizer “Larga-me da mão. Deixa-me viver a minha própria vida”. Mas também sabem que estes gestos e palavras de rebeldia não equivalem – não podem equivaler – a um afastamento total. Sabem que não são os melhores amigos dos filhos mas não sofrem por isso. O seu papel é outro – o de cuidadores. E ainda que os filhos revirem os olhos quando as perguntas são (sentidas como) invasivas, eles sabem que o mais importante é passar a mensagem “Eu estou aqui. Eu vou estar sempre aqui”. 
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