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1.9.16

CHANTAGEM EMOCIONAL


Quando, depois de dizer ao meu filho para comer tudo o que estava no prato, o ouvi perguntar-me «Senão a mamã chora?», dei-me conta de que, mesmo de forma involuntária, tinha colocado o pé na poça. Tenho a certeza de que nunca lhe disse que, se ele não se comportasse de determinada maneira, eu choraria mas aquela pergunta não tinha surgido do nada. Quantas vezes não terei dito qualquer coisa como «Se comeres tudo, a mamã fica contente»? É natural que uma criança junte 2+2 e, calcule que, se não comer tudo, a mamã possa ficar triste. E, aos 3 anos, ficar triste é chorar. Sem querer, posso ter feito chantagem emocional com o meu filho.

Fazemos (quase todos) chantagem emocional mais vezes do que gostaríamos. E nem sempre paramos para pensar nos danos associados a esta forma de violência emocional. Sim, é de violência emocional que falamos, pelo menos nalguns casos.



De um modo geral, este tipo de manipulação apela ao medo, à obrigação e aos sentimentos de culpa da outra pessoa forçando-a a satisfazer aquilo que desejamos. Na medida em que nos habituemos a utilizar este tipo de estratégias para convencer as nossas crianças a assumir determinados comportamentos, estamos, lamentavelmente, a educa-las no sentido de tolerarem que outras pessoas as manipulem.

Quando um pai ou uma mãe diz «Se não comeres a sopa toda, eu já não gosto de ti», está, sem querer, a impedir que o filho reconheça este tipo de frases como chantagem emocional. Na idade adulta, se este ouvir qualquer coisa como «Se tu gostasses mesmo de mim, farias aquilo que eu estou a pedir», é mais provável que não se dê conta de que está a ser vítima de chantagem.

Se um homem disser à namorada «Se tu gostasses mesmo de mim, não usavas minissaia», está a exercer violência emocional. Porquê? Porque está a tentar IMPOR a sua vontade apelando aos sentimentos de culpa da namorada. Ele sabe que ela valoriza os seus sentimentos, sabe que ela o ama MAS joga com isso para a persuadir a fazer aquilo que ELE quer.

Estamos a fazer chantagem emocional sempre que fazemos comentários como:

«Se tu te preocupasses comigo…»

«Se tu quisesses saber de mim…»

Mas há mais. Quando alguém faz uma ameaça – explícita ou implícita – para garantir que a sua vontade seja satisfeita, também está a fazer chantagem emocional. São exemplos disso os seguintes comentários:

«Se não comeres a sopa toda, tiro-te os brinquedos.»

«Se me deixares, vais acabar sozinha.»



Nas relações afetivas não há arma mais poderosa e destrutiva do que a chantagem emocional que envolva o abandono ou o sofrimento. Algumas pessoas apercebem-se de que esta é uma forma de imporem a sua vontade e usam-na sempre que houver algo a “ganhar”. Eis dois exemplos:

«Eu não sei o que é que faria se tu me deixasses. Acho que era capaz de cometer uma loucura.»

«Estás sempre a trabalhar. Pode ser que um dia acordes sozinho.»

As pessoas que usam a chantagem emocional de forma recorrente e consciente são, de um modo geral, pessoas que detestam perder e com pouquíssima tolerância à frustração. Centram-se nas suas necessidades afetivas e, à medida que a relação evolui, vão mostrando cada vez menos interesse pelas necessidades e sentimentos da vítima. As pessoas que cedem à chantagem podem, na medida em que se deem conta disso, travar o processo. Mas se se tratar de situações pouco claras que envolvam o cônjuge ou outro familiar próximo, pode ser difícil identificar o fenómeno. A pessoa percebe que há qualquer coisa de errado, sente-se sistematicamente em baixo mas pode não ser capaz de interromper o círculo vicioso.


Aprender a reconhecer a chantagem emocional, identificar os próprios sentimentos e necessidades afetivas e ser capaz de dizer NÃO pode não ser fácil nem instantâneo. Mas é um caminho imprescindível para que nos sintamos em paz e construamos relações felizes.
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