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17.10.17

O TRATAMENTO DO SILÊNCIO


Podiam estar vários dias sem falar e os motivos nem sempre eram óbvios. Às vezes era algo que João dizia e de que Mariana não gostava que a levava a fechar-se na sua concha. Outras vezes era um pedido que ficava por atender e a mágoa que sentia levava-a a “retirar-se”. Fisicamente continuava lá, muitas vezes respondendo ao essencial, mantendo a cordialidade. Do ponto de vista dos afetos a mudança era radical - «Como se fosse outra pessoa», afirmava João. Sentia-se castigado, desprezado e cada vez mais frágil. Com a passagem do tempo e as infrutíferas tentativas de reaproximação, a situação piorou. «A páginas tantas, eram mais as vezes em que eu desconhecia os motivos do amuo. Podia ser qualquer coisa. Bastava que eu me desviasse do que a minha mulher tinha pensado. Além disso, a duração do silêncio podia ser de semanas».

É difícil imaginar que haja casais que possam estar semanas sem falar mas esta é a realidade de muitas pessoas com quem tenho trabalhado. O tratamento do silêncio é uma forma de abuso emocional que tem como objetivo impor a própria vontade. De resto, é quase sempre assim quando falamos de violência emocional: a pessoa que pratica os abusos (e que até pode estar convencida de que não há violência nos seus atos) procura controlar o comportamento do companheiro desrespeitando-o.



 Não é por acaso que se ouve dizer que uma relação feliz também é feita de desencontros e cedências. Quando a pessoa de quem gostamos nos magoa, tem uma perspetiva muito diferente da nossa ou pura e simplesmente não faz aquilo que esperávamos é normal que nos sintamos frustrados. Momentaneamente temos o direito de sentir raiva e pode ser prudente dizer «Preciso de um tempo sozinho(a)». De uma maneira geral, falo de uns 30 minutos até que a pessoa seja capaz de se acalmar e esteja disponível para conversar. Quando isto acontece, aquilo que a pessoa mostra é:

«Estou triste/ magoado(a) contigo mas quero perceber aquilo que sentes
e quero que saibas o que eu sinto».



Está demasiado centrada nas suas necessidades e utiliza a retirada dos gestos de afeto para castigar e impor a sua vontade. Muitas vezes o amuo só desaparece depois de a sua vontade ser satisfeita. E, mesmo assim, pode levar algum tempo até que a normalidade seja resposta. O que importa é passar a mensagem:

«Se te desvias daquilo que eu espero de ti, castigo-te».

Se é alvo desta forma de abuso emocional, saiba o que deve fazer:

  • Tome consciência de que se trata de uma forma de desrespeito e NÃO tente uma reaproximação.
  • Saia de cena. Mostre de forma clara que não vai ficar “ali” durante o castigo.
  • Foque-se em qualquer atividade que lhe dê prazer e/ou permita que se distraia do foco de tensão. Vá ao cinema, faça desporto, saia com amigos.
  • Quando o seu companheiro quiser voltar ao assunto que motivou o amuo, sinalize esta forma de abuso. Diga de forma clara «Não vou permitir que me desrespeites desta forma».
  • Foque-se na sua recuperação. O abuso emocional deixa marcas profundas na autoestima. Procure ajuda especializada e obtenha ferramentas para identificar e dar resposta a todas as formas de abuso de que possa estar a ser alvo.


O tratamento do silêncio, bem como outras formas de violência emocional, não existe apenas nas relações amorosas. Muitas vezes está presente na relação entre pais e filhos, entre amigos ou em contexto profissional. Por se tratar tantas vezes de exercícios subtis de manipulação, pode ser difícil para a pessoa que esteja a ser alvo de abuso emocional identificar o problema. A ajuda psicoterapêutica é uma forma sólida de ganhar poder sobre a própria vida, impondo limites e resgatando a possibilidade de ser feliz.
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