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18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.

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